Achaques

Chegar aos setenta, oitenta e outros ‘entas’ é uma idéia que não me assusta tanto. Talvez pelas sábias Donas Sinhás e Nair, Donas Elzas, Tias Lias e Donas Luzias que tenho (ou tive) a honra de ter no meu caminho, vejo que é possível avançar pela vida com lucidez e sabedoria, carregando uma gratidão profunda por cada ano vivido. No entanto, me assusta a idéia de envelhecer. Falo das rabugices, da falta de brilho e de interesse, de todos os achaques enjoadinhos que deixam a vida sem graça. Coisas de gente que reclama de tudo o tempo todo, que já te cumprimenta falando de “uma dorzinha aqui, outra ali”, que cultiva uma teimosia gratuita somente para impor a sua vontade, que cultiva manias e mais manias, que acha tudo muuuuito difícil, muuuuito caro ou muuuuuito trabalhoso, que não joga nem um papel de bala fora com medo dos tempos difíceis de amanhã. Recentemente, ouvi uma pessoa dizer que prefere viver sozinha porque o “fulano” não tinha cuidado com seus móveis e que demitiu a faxineira por ela não fazer as coisas exatamente “do seu jeito”. E engana-se quem pensa que eu estou falando de idosos. Estou falando de mim, de você, dos outros. Cada vez mais percebo os traços de velhice em gente com pouquíssimo tempo de estrada. Todo mundo, sem exceção, tem um pouco dessas coisas dentro de si, variando somente o grau da coisa. Portanto, na hora que a velhota ou um velhote encarnarem em você, faça um lifting no astral, malhe a rabugice e não hesite em uma lipo caprichada na preguiça. O melhor exercício é sempre tentar  pensar como a avó da Shê, ultra-jovem no alto dos seus noventa e muitos anos e que está sempre protelando a velhice pra um futuro distante.

 

"Vocês acham que eu não penso na velhice? Eu sei que eu ainda vou ficar velha... UM DIA."

 

 

Escrito por Clara Bóia às 10h46
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