Lembro-me do dia em que me inscrevi no mestrado. Era o último dia de inscrição e chovia potes! Eu cheguei quarenta e cinco minutos antes do encerramento e aguardava para fazer a ficha de inscrição. Estava molhada, já que a minha sombrinha não dispõe de um mecanismo anti-dilúvio e chuvas de vento. Mas o meu projeto estava intacto, dentro de um plástico resistente, com capa em papel color plus bege, e cartão beterraba delicadamente anexado com um mini-clips dourado. Sentou-se então uma senhora ao meu lado disse: “Nossa, que bonito! Minha filha ia adorar ver o seu trabalho, ela gosta de umas coisas bonitas assim!”. A espontaneidade do comentário foi encantadora, bem como a conversa que iniciamos. A filha também estava concorrendo ao processo, e ela estava ali para entregar a documentação em seu nome. Com muito orgulho ela me disse: “Minha filha é muito preparada, dá uma olhada só no currículo dela. Tomara que ela consiga passar, pois ela está desempregada e o mestrado abre portas, não abre?” Olhei o currículo com carinho e não havia muitos itens. Graduada há quatro anos, uma pós, pouca experiência prática. Mas havia ali uma fã ardorosa, como toda mãe é, torcendo de coração pelo sucesso de sua cria. Ela perguntou sobre o meu trabalho, perguntou se eu não poderia indicar a filha dela pra alguma vaga onde eu trabalhava, “podia ser qualquer coisa mesmo, só pra ela ter chance de entrar pro mercado”. Eu respondi que sim, que replicaria o currículo e deixei meu cartão, no fundo, torcendo pra ela me escrever mesmo. Mas não escreveu. No mestrado, ela também não foi selecionada e nunca soube quem ela era. Mas tenho comigo que uma pessoa que tem um anjo desses por perto não consegue ficar muito longe das boas oportunidades. Naquele dia, fiz a minha inscrição e corri feliz pra cantina para encontrar o meu anjo em forma de mãe que, é claro, também estava ali comigo aquele dia.

Escrito por Clara Bóia às 04h23
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