ROSA

Eles eram um casal muito fofo, muito mesmo! Eram - porque ele faleceu há uns três anos e ela segue firme, rumo aos setenta. Pessoas simples e queridas, que comemoravam a vida nos detalhes. A cada aniversário de casamento, ele dava a ela um envelopinho com o número de dias que estavam juntos. Depois que fizeram 40 anos de casado, o papel dobrado trazia uma considerável soma, sempre vista com admiração por ambos. Ele brincava " Eu te aturo há 14 600 dias!" E ela devolvia sorrindo: "Isso tudo? Meu lote no céu tá garantido então". Faziam piada de tudo, dividiam até mesmo os instantes e se preparavam para o aniversário de 50 anos - bodas de ouro. Ela gracejava "Nas nossas bodas de ouro, eu vou vestir um tomara-que-caia" bem provocante." E ele, respondia " Já eu vou ficar no tomara-que-suba mesmo". Não vestiu. Com uma doença relâmpago, o senhor robusto que ele sempre foi,  definhou em uma cama rapidamente em pouco mais de um mês. Pensei como ela iria seguir em frente depois disso, a dor era tão grande! Mas ela encarou com ternura surpreendente. No velório, ela me disse. "sempre disse tudo o que sentia. não ficou nada pra ser dito." Outro dia, eu e meu marido fomos visitá-la. Entre pães de queijo e muita conversa, percebi porque ela conseguia tocar seu destino. Ele estava lá. Na foto que ficava na beirada da cama, na beleza dos netos, na casa construída, na escolha dos móveis, na alegria que ela nunca perdeu por um dia ter sido esposa dele. Tudo continuava lá e ele também estava ali, vivo. Só que de uma outra forma.

Escrito por Clara Bóia às 19h12
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